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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Me lembro bem daquele beijo

     Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daqueles; brotou como tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques.Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias qu durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, - coitadinha, - trêmula de medo, porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único,- breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delicias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavem em alegria, - uma hipocresia paciente e sistemática,único freio de uma paixão sem freio, - vida de agitações, de coléras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava a farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar a tona as agitações eo resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade : tal foi o livro daquele prólogo.
     Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estireime na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite.

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